Trump passou um ano ameaçando tomar a Groenlândia pela força. Na terça assinou com a Dinamarca e a Groenlândia um acordo que os três lados chamam de vitória. Trump diz que tem “controle permanente sobre a segurança.” A Dinamarca diz que a soberania está intacta. O mesmo texto, duas versões da históriaFoto: Imagem gerada por IA/ND Mais
No dia 20 de janeiro de 2025 — o dia da posse de Trump — o presidente recém-empossado anunciou que os Estados Unidos deveriam “adquirir” a Groenlândia. Nos meses seguintes, não descartou o uso de força militar para isso.
A Dinamarca respondeu que a soberania da Groenlândia não era negociável. Doze países da OTAN, mais Canadá e União Europeia, lançaram operações militares conjuntas no Ártico como sinal de que levariam a sério qualquer ameaça ao território dinamarquês.
Um ano, sete meses e dois dias depois, Trump, a primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederiksen e o primeiro-ministro da Groenlândia Jens-Frederik Nielsen se sentaram juntos nas margens da Assembleia Geral da ONU em Nova York e assinaram um acordo.
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“Tremendo para a Europa e para os Estados Unidos e para todos”, disse Trump após a assinatura.
“Reconhece a soberania e a integridade territorial do Reino da Dinamarca e o direito do povo da Groenlândia à autodeterminação”, disse Frederiksen.
O mesmo documento. Duas descrições completamente diferentes. Essa contradição não é acidente — é a chave para entender o que realmente foi assinado na terça-feira.
O que o acordo diz — no texto real
A Casa Branca publicou o texto completo horas após a assinatura. Vale ler com cuidado, porque a distância entre o que Trump disse e o que o documento diz é reveladora.
O acordo permite que os EUA “modernizem e expandam” suas atividades na Base Espacial de Pituffik — a instalação militar americana mais ao norte do mundo, no noroeste da Groenlândia. Até aqui, é uma atualização de algo que já existia desde 1951.
O que é novo: os EUA podem estabelecer bases em Narsarsuaq, no sul, e em Mestersvig, no leste — além de terem opção de “estabelecer áreas de defesa adicionais.”
Aeronaves americanas podem sobrevoar e pousar em qualquer lugar da Groenlândia, incluindo suas águas territoriais. O acordo também concede “acesso submarino” — linguagem que cobre operações de submarinos nas águas groenlandesas.
Nenhum país não-OTAN pode estabelecer instalações militares ou presença “persistente” na Groenlândia sem aprovação unânime dos três signatários — EUA, Dinamarca e Groenlândia. Investidores de “setores sensíveis” fora da OTAN e da UE ficam expressamente proibidos.
O acordo não tem data de término.
O que Trump ganhou
A Groenlândia já tinha uma presença militar americana — a Base de Pituffik existia desde 1951. O que Trump conseguiu é substancialmente mais do que isso.
Duas novas bases. Acesso irrestrito ao espaço aéreo. Acesso submarino. Veto sobre qualquer presença militar não-OTAN. Bloqueio a investimentos chineses e russos em setores estratégicos.
E uma cláusula sobre o “Golden Dome” — o sistema de defesa antimíssil que Trump quer construir — que permite sua instalação e operação na Groenlândia.
Trump descreveu o acordo como dando aos EUA “controle permanente sobre a segurança e todas as outras necessidades na Groenlândia.” A palavra “permanente” é importante — o acordo realmente não tem data de expiração. E “todas as outras necessidades” é deliberadamente vago, deixando espaço para interpretação futura.
O que Trump não conseguiu é o que havia pedido originalmente: soberania americana sobre a Groenlândia. O texto reafirma explicitamente a soberania dinamarquesa e o direito de autodeterminação dos groenlandeses.
O que a Dinamarca — e a Groenlândia — ganharam
Frederiksen disse que a soberania está intacta. Nielsen chamou de “win-win-win” e “histórico.” Essas declarações não são apenas diplomacia. Refletem algo real que os dois países conseguiram.
A Dinamarca evitou o pior cenário — uma invasão americana ou uma pressão tão intensa que a Groenlândia simplesmente declarasse independência para depois negociar diretamente com Washington, deixando Copenhague fora do jogo. Em vez disso, a Dinamarca é signatária do acordo como parte igual. Qualquer mudança futura no status da Groenlândia precisará passar por Copenhague.
A Groenlândia — cujo primeiro-ministro Nielsen tem sido mais pragmático do que muitos esperavam — conseguiu ser tratada como ator soberano numa negociação trilateral, não como objeto de barganha entre dois países maiores.
O acordo dá ao governo da Groenlândia poder de veto sobre novas instalações militares e sobre investimentos estrangeiros. Numa ilha que busca progressivamente mais autonomia em relação à Dinamarca, esse poder de veto não é simbólico.
O contexto interno da Groenlândia também importa: há um movimento de independência robusto na ilha. O acordo que Nielsen assinou terça-feira é parte de um argumento para seu eleitorado de que ele conseguiu proteger a soberania groenlandesa de duas ameaças simultâneas — a pressão americana e a potencial dependência econômica de atores não-ocidentais, como a China, que havia mostrado interesse crescente nos minerais da ilha.
Por que a China e a Rússia são o subplot que importa
O acordo foi discutido publicamente como questão bilateral entre EUA e Dinamarca. A história real é triangular — e os terceiros vértices são Moscou e Pequim.
A Groenlândia tem uma das maiores concentrações de terras raras e minerais críticos do mundo — elementos essenciais para baterias de veículos elétricos, turbinas eólicas, semicondutores e equipamentos militares de precisão.
No contexto da guerra pelo controle de minerais críticos que cobrimos nas colunas sobre as Ilhas Cook e sobre a fábrica de robôs chinesa, a Groenlândia é um prêmio de proporções extraordinárias.
A China havia mostrado interesse explícito em investimentos em mineração na Groenlândia ao longo dos anos 2010. O governo groenlandês havia rejeitado algumas propostas — mas a ausência de um framework formal de segurança deixava a porta teoricamente aberta.
O acordo de terça-feira fechou essa porta. Explicitamente. “A Groenlândia garante que a China e a Rússia não vão poder ter uma base na Groenlândia, não vão poder enviar tropas, e os mecanismos necessários estão em vigor para prevenir investimentos em setores sensíveis”, disse um funcionário do Departamento de Estado americano.
Russo e China ficam fora. EUA, OTAN e UE ficam dentro. É o mesmo padrão que vimos na disputa pelas Ilhas Cook — mas numa escala geopoliticamente muito mais relevante.
O Ártico que está sendo disputado
A corrida pelo Ártico que cobrimos aqui em setembro tem um novo capítulo com o acordo da terça-feira. O derretimento do gelo ártico está abrindo rotas marítimas que eram impraticáveis até recentemente — incluindo a Passagem do Noroeste, que reduziria dramaticamente o tempo de viagem entre Europa e Ásia.
A Groenlândia está no centro geográfico dessas rotas. Quem controla a segurança da Groenlândia — ou pelo menos tem presença militar lá — tem posição privilegiada nas rotas árticas do século XXI. As novas bases em Narsarsuaq (sul) e Mestersvig (leste) cobrem exatamente os pontos de entrada dessas rotas.
Somado ao “acesso submarino” que o acordo garante, os EUA estão posicionando sua Marinha para dominar o Ártico à medida que ele se torna navegável — antes que Rússia ou China possam fazer o mesmo.
O que nenhum dos lados está dizendo
Há uma dimensão do acordo que Trump não menciona e que Frederiksen e Nielsen preferem não enfatizar.
O acordo cria um precedente para o argumento de que segurança e soberania podem ser separadas — que um país pode manter nominalmente a soberania enquanto outro exerce controle operacional sobre sua defesa, espaço aéreo e águas.
É uma fórmula que os EUA já conhecem bem: é aproximadamente o que acontece com o Japão e a Coreia do Sul, onde tratados de segurança americanos coexistem com soberania formal desses países.
A Groenlândia aceitou essa fórmula. Conseguiu preservar a bandeira, os passaportes e a forma política de auto-governança. Entregou, na prática, o controle sobre quem pode estar militarmente presente em seu território.
Para os groenlandeses que querem independência da Dinamarca — eventualmente — esse acordo cria uma complicação: uma Groenlândia independente herdaria um acordo de segurança com os EUA que não pode ser encerrado unilateralmente. A independência que muitos groenlandeses querem viria com um inquilino permanente que Trump já disse que tem “controle permanente.”
A semana que redesenhou o Ártico — e mais
O acordo da Groenlândia foi assinado na mesma semana em que: Trump negociou com o Irã nos bastidores da ONU, recebeu Xi Jinping na Casa Branca, e acusou o Brasil de falhar contra o PCC.
Cada um desses eventos é significativo individualmente. Juntos, formam o esboço de uma doutrina: os EUA estão redesenhando ativamente o mapa geopolítico do hemisfério ocidental e do Ártico antes das eleições de novembro.
A Groenlândia que terça-feira passou a ter bases americanas permanentes é o mesmo território que em 2019 Trump tentou comprar por cheque e foi ridicularizado. O que mudou não foi a ambição americana — foi a estratégia. Em vez de comprar, os EUA conseguiram o acesso que precisavam sem pagar o preço político e diplomático de uma aquisição formal.
Trump chamou de “tremendo.” Frederiksen chamou de respeito à soberania. Nielsen chamou de “win-win-win.”
Os três estão certos — sobre coisas diferentes. E é exatamente por isso que o acordo foi possível.
