Guerras esquecidas 2026: Myanmar tem 78 anos de conflito, Chipre 52, o Saara Ocidental 51, o Congo 30. Não pararam porque o noticiário parou de cobri-las. Continuam porque é conveniente para alguém que continuemFoto: Imagem gerada por IA/ND Mais
Nos últimos meses, neste espaço, escrevemos sobre a guerra no Irã, os mísseis na Ucrânia, o Pacto de Meca e as crises diplomáticas do Brasil. São os conflitos que dominam o noticiário global de 2026 — aqueles que afetam o preço do petróleo, movimentam arsenais da OTAN e determinam quem será o próximo presidente de quais países.
Mas enquanto esses conflitos consomem toda a atenção disponível, outros continuam. Silenciosamente. Sem câmeras. Com mortes, deslocamentos e destruição que não diminuíram apenas porque o noticiário parou de cobri-los.
Esta é uma coluna sobre guerras que o mundo esqueceu — e sobre por que esse esquecimento raramente é acidental.
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A guerra mais antiga ainda em andamento: Myanmar tem 78 anos de conflito
Em 1948, quando a Birmânia se tornou independente do domínio britânico, começaram imediatamente os conflitos armados entre o governo central e dezenas de grupos étnicos armados nas regiões periféricas do país.
Grupos karen, kachin, shan, mon, chin — cada etnia com suas próprias forças armadas, seus próprios territórios e suas próprias razões para resistir à centralização do poder em Rangum.
Essa guerra de múltiplas frentes nunca terminou. Passou por governos civis, décadas de ditadura militar, uma breve transição democrática entre 2010 e 2021 e o golpe militar que em fevereiro de 2021 derrubou o governo eleito de Aung San Suu Kyi.
O golpe de 2021 reunificou boa parte da oposição — grupos étnicos antes rivais, civis que nunca haviam pegado em armas, forças de defesa populares improvisadas — contra o Exército birmanês. Em 2026, grupos rebeldes controlam partes significativas do território nacional, incluindo cidades na fronteira com a China e a Tailândia.
78 anos de conflito em um país que poucos sabem localizar no mapa
Myanmar aparece no noticiário quando há foto impressionante de um conflito particular ou quando algum diplomata ocidental visita a região. No intervalo, simplesmente continua sendo um país em guerra — há 78 anos.
É o conflito armado mais antigo ainda ativo no mundo, e a maioria das pessoas não saberia apontar o país num mapa sem hesitar.
Os conflitos congelados: quando a guerra vira paisagem
Há uma categoria especial de conflito que os analistas chamam de “conflito congelado” — situações em que um cessar-fogo foi estabelecido mas nenhum acordo de paz real foi alcançado.
As armas pararam formalmente. As causas do conflito permaneceram intactas. E o tempo passou, transformando o que deveria ser uma solução provisória numa realidade permanente.
Chipre está assim desde 1974 — 52 anos. Quando as forças turcas invadiram o norte da ilha após um golpe apoiado pela Grécia, dividiram o país em dois.
A República do Chipre, membro da União Europeia desde 2004, controla o sul. A República Turca do Chipre do Norte, reconhecida apenas pela Turquia, controla o norte. No meio, uma zona tampão controlada pela ONU atravessa a capital, Nicósia — a única capital europeia dividida por uma fronteira militar.
Dezenas de rodadas de negociação ao longo de cinco décadas não produziram reunificação. O conflito não custa muitas vidas atualmente — mas 200 mil cipriotas foram deslocados em 1974 e nunca retornaram a suas casas.
Muitas dessas casas estão abandonadas e em ruínas no lado norte, visíveis através da linha divisória mas inacessíveis.
Transnístria é uma faixa de território que se separou da Moldávia em 1990, com apoio russo, e que desde então existe numa espécie de limbo: tem seu próprio governo, moeda, passaporte e exército, mas nenhum país do mundo a reconhece oficialmente como Estado — nem mesmo a Rússia, que a sustenta diplomaticamente e militarmente.
A Rússia mantém cerca de 1.500 soldados lá, nominalmente como “mantenedores da paz”. Na prática, como garantia de que a Moldávia nunca se integrará completamente ao Ocidente enquanto tiver um pedaço de território fora do seu controle.
O Saara Ocidental: a última grande questão colonial da África
Em 1975, a Espanha se retirou do Saara Ocidental — seu último território colonial africano. O Marrocos ocupou imediatamente a região, reivindicando soberania histórica. A Frente Polisário, movimento de independência sahrawi apoiado pela Argélia, resistiu militarmente.
Um cessar-fogo foi estabelecido em 1991, mediado pela ONU. Em troca da cessação das hostilidades, foi prometido aos sahrawi um referendo de autodeterminação — onde poderiam votar pela independência ou pela integração ao Marrocos. Esse referendo nunca aconteceu.
Em 2026, 35 anos depois do cessar-fogo prometido, mais de 165 mil refugiados sahrawi vivem em campos no deserto argelino, aguardando poder retornar a um território que o Marrocos controla, explora e está progressivamente integrando ao seu território.
O Marrocos construiu uma muralha de areia de 2.700 quilômetros para separar o território que controla do que a Frente Polisário reivindica.
Por que o Saara Ocidental foi esquecido
O Marrocos tem fosfato — essencial para fertilizantes e portanto para a produção global de alimentos. O Saara Ocidental tem a maior reserva de fosfato do mundo, que agora está sob controle marroquino.
Os países que consomem esses fertilizantes têm razões econômicas para não pressionar o Marrocos em excesso. E assim o referendo prometido em 1991 nunca vem — e os refugiados sahrawi continuam nos campos.
A Caxemira: a disputa nuclear de 79 anos
Quando o subcontinente indiano foi dividido entre Índia e Paquistão em 1947, a região da Caxemira ficou numa posição ambígua. Seu maharajá, hindu, decidiu pela adesão à Índia — mas a maioria da população era muçulmana e o Paquistão reivindicava o território. O resultado foi imediato: guerra.
Desde então, Índia e Paquistão travam uma disputa que gerou três guerras (1947, 1965 e 1971) e incontáveis escaramuças ao longo da Linha de Controle que divide a região. O complicador de 2026: ambos os países têm arsenais nucleares. A Caxemira é a única disputa territorial ativa no mundo entre duas potências nucleares declaradas.
Em 2019, a Índia revogou o estatuto especial de autonomia da Caxemira indiana — aumentando as tensões. O conflito de baixa intensidade continua na região, com mortes periódicas e uma população civil que vive entre dois exércitos há quase 80 anos.
O Congo: 30 anos de guerra pelos minerais do seu celular
A República Democrática do Congo está em conflito desde 1996 — 30 anos.
O conflito no leste do país, alimentado pela disputa por coltan (essencial para capacitores de smartphones), cobalto (baterias de veículos elétricos) e ouro, já custou estimados 6 milhões de vidas — tornando-o o conflito mais mortal desde a Segunda Guerra Mundial em número absoluto de vítimas.
Dezenas de grupos armados operam no leste do país. Alguns são financiados por governos vizinhos, especialmente Ruanda. Outros são milicias locais que controlam áreas de mineração. Outros ainda são facções de exércitos que se desintegraram.
A ONU mantém uma missão de paz no Congo há mais de duas décadas — uma das maiores e mais caras operações de paz da história — com resultados limitados.
É o conflito que mais diretamente conecta o cotidiano do leitor brasileiro às guerras esquecidas: cada smartphone, cada carro elétrico, cada bateria de laptop contém minerais que podem ter financiado uma milícia no Congo.
Por que o mundo esquece certas guerras
Aqui está a questão mais importante que essa lista levanta: por que alguns conflitos dominam o noticiário global enquanto outros continuam por décadas sem cobertura significativa?
A resposta tem várias camadas.
A primeira é geográfica e econômica: conflitos que ameaçam rotas de petróleo, comércio global ou a segurança de países ricos recebem atenção desproporcional. A guerra no Irã dominou 2026 porque fechou o Estreito de Ormuz.
A guerra na Ucrânia dominou porque ameaçou a segurança da Europa. Myanmar, o Congo e o Saara Ocidental não ameaçam nenhuma rota crítica para os países que controlam os meios de comunicação globais.
A segunda é narrativa: guerras precisam de personagens reconhecíveis, de um lado certo e um lado errado, de imagens que gerem empatia.
Conflitos com dezenas de facções, em territórios remotos, sem personagens centrais facilmente identificáveis, são difíceis de narrar de forma que mantenha a atenção do leitor.
A terceira — e mais perturbadora — é que algumas guerras continuam porque alguém quer que continuem. A Rússia quer Transnístria dividida da Moldávia. O Marrocos quer o fosfato do Saara Ocidental. Grupos armados no Congo querem as minas de coltan. Quando um conflito serve a interesses poderosos, os incentivos para resolvê-lo desaparecem — e o noticiário, sem pressão política para mantê-lo vivo, eventualmente migra para o próximo.
Atenção é um recurso finito — e alguém sempre escolhe onde ela vai
Guerras esquecidas não param de matar por serem esquecidas.
As famílias sahrawi nos campos argelinos não ficam menos deslocadas porque o noticiário brasileiro não as menciona.
As crianças soldado no Congo não são menos reais porque o preço do coltan não aparece no noticiário.
Os cipriotas com casas abandonadas no norte da ilha não recuperam suas propriedades porque a ONU levou décadas negociando.
O esquecimento tem consequências reais. Conflitos sem atenção internacional são conflitos sem pressão por solução — e conflitos sem pressão por solução tendem a se perpetuar, às vezes por gerações inteiras.
2026 é o ano das guerras que dominam o noticiário. Mas é também, silenciosamente, o 78º ano da guerra em Myanmar, o 52º de Chipre, o 51º do Saara Ocidental, o 30º do Congo.
Eles continuam. Simplesmente pararam de aparecer.
