Manhã do dia 6 de junho foram 17 aeronavesFoto: Diogo de Souza/ND
“Durante três meses essa cidade viveu em silêncio”, relembra uma funcionária de um supermercado de Praia Grande, no Sul de Santa Catarina. O desabafo traduz o luto coletivo que se instalou no município de pouco menos de 10 mil habitantes após o dia 21 de junho de 2025.
Naquela manhã, a queda de um balão de ar quente deixou oito mortos e 11 feridos, transformando a paisagem bucólica dos cânions no cenário da pior tragédia da história do balonismo mundial.
Um ano depois, o assunto ainda é tratado com extrema delicadeza pelos moradores.
Receba no WhatsApp as principais notícias de Criciúma e Sul de SC Entre no grupo
Nas ruas, muitos evitam tocar no tema. Quem aceita falar, o faz cabisbaixo ou de maneira discreta. O episódio revolucionou não apenas os critérios técnicos para novos voos, mas também a própria rotina da comunidade.
O trauma foi tão profundo que os reflexos cruzaram oceanos: logo após o acidente, o setor registrou uma queda drástica de 80% na procura por voos e hotelaria na região.
O abalo na confiança do modal atingiu até a Capadócia, na Turquia (“capital mundial” da prática), que viu sua demanda encolher temporariamente em cerca de 20%, evidenciando o tamanho do impacto global do ocorrido em solo catarinense.
Hoje, quase 364 dias depois, a cidade busca forças para virar a página sem esquecer o passado.
-
1 de 3
Mensagem no cesto do balão; depois da tragédia em Praia Grande, muitas prerrogativas mudaram – Diogo de Souza/ND
-
2 de 3
Depois da tragéida do dia 21 de junho, houve uma série de alterações – Diogo de Souza/ND
-
3 de 3
Balões em Praia Grande; aos poucos a vocação vai voltando à cidade que respira aventura e turismo – Diogo de Souza/ND
O movimento atual é de reconstrução. Com exigências severas da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) e uma integração inédita entre os operadores locais, o turismo ensaia uma retomada gradual.
Os números de visitantes ainda não alcançaram o patamar anterior ao desastre, mas já se aproximam dele, impulsionados por quem trabalha na linha de frente para devolver a segurança ao céu.
Retomada da confiança e risco de linxamento
Na manhã em que a reportagem acompanhou o voo, foram 17 balões no ar, em um clima considerado perfeito para a prática.
“Sou suspeito de falar, mas voar é uma experiência muito tranquila, de meditação e contato com o céu. Faz bem para o psicológico de quem quer relaxar da correria do dia a dia”, relata Anderson Duarte, que atua na equipe de apoio de uma empresa de balonismo há três anos.
Ele testemunhou de perto a transição do medo para a confiança. “Hoje estamos em uma crescente muito legal. As pessoas ficam receosas no início, mas entendem que, como qualquer transporte, há riscos. O diferencial é que nossos protocolos e a qualidade dos equipamentos mudaram para melhor”.
De acordo com o profissional, a grande virada na comunidade de balonismo foi a comunicação obrigatória e o monitoramento em tempo real.
“O equipamento já era um veículo seguro, mas agora a troca de informações entre os pilotos é constante. Passamos a usar um sistema rigoroso de bandeiras para identificar os microfontes do clima e as condições exatas de voo antes de qualquer decolagem”, pontua.
Risco de linxamento
Na cidade a conversa que corre entre os moradores é que o piloto, jamais ou pouco foi visto pelas ruas.
Há quem defenda que o cidadão pode até ser linxado se ficar muito exposto tamanha a repercussão do caso. Em meio ao núcleo do balonismo, há uma ciência e uma repulsa pelos riscos que o autor do voo assumiu, ao dar início ao voo.
Relembre o caso
Era 21 de junho de 2025 quando um balão transportava 21 pessoas quando um incêndio começou cerca de dois minutos após a decolagem. Em meio ao fogo, quatro ocupantes saltaram da cesta tentando escapar das chamas e morreram em decorrência da queda.
Outras quatro pessoas morreram carbonizadas dentro da aeronave. Ao todo, 18 passageiros sobreviveram ao acidente, muitos deles com ferimentos graves.
