O corredor do Cepon (Centro de Pesquisas Oncológicas), em Florianópolis, tornou-se o campus improvisado da cabeleireira Grasiele de Jesus, de 40 anos. Com o notebook apoiado sobre os joelhos, ela passava entre cinco e seis horas acompanhando as sessões de quimioterapia do pai, diagnosticado com câncer de bexiga em 2023. No ano seguinte, a rotina de cuidados e telas se repetiu quando a mãe enfrentou um câncer de útero. Entre as intercorrências médicas, Grasiele redigia relatórios de estágio e assistia a videoaulas.
Dona de um salão de beleza e trabalhando na área desde os 17 anos em Alfredo Wagner, município de 10 mil habitantes na Grande Florianópolis, Grasiele havia enfrentado uma depressão e buscava uma virada profissional aos 36 anos. “Meu sonho era fazer outra coisa na vida. E aqui na minha cidade, se tu não tiver um pouquinho de estudo, o que te sobra é trabalhar em supermercado, ser atendente de balcão, etc.”
Grasiele de Jesus em sua formatura, em 2025Foto: Arquivo Pessoal/Grasiele de Jesus
Diante de uma economia local que crescia e passava a demandar qualificação técnica, mas sem condições financeiras ou logísticas de migrar para um grande centro, ela encontrou no algoritmo das redes sociais o anúncio de um polo de ensino à distância (EaD) em sua cidade. Entre 2022 e 2025, conciliando o trabalho no salão de beleza, a maternidade e a rotina de cuidadora, ela concluiu duas graduações: Administração e Pedagogia. “Eu não me imaginava nessa situação, não na minha cidade. Porque era algo muito distante, muito inviável para mim, no momento de vida que eu estava vivendo”, diz a empreendedora.
Apesar de não estarem mais presentes na formatura de Grasiele, em 2025, ela relembra o apoio e o orgulho compartilhado ao longo da trajetória. “Meu pai dizia: ‘Isso aí, minha filha. Tem que estudar porque a gente nunca sabe o dia de amanhã’. Eles sempre foram a favor do estudo. A minha mãe nem se fala. Ficou toda orgulhosa da filha dela fazendo faculdade. Falava para todo mundo lá no CEPON que eu fazia faculdade. Eu estava sempre com o notebook aberto e ela comentava: ‘olha aí, ela está estudando’. E se não fosse o digital, jamais teria começado”.
Interiorização do ensino pelas telas
Houve um tempo, não muito distante, em que completar o Ensino Médio em pequenas cidades do interior, como Alfredo Wagner, significava o fim da linha acadêmica ou o início de uma migração para os maiores centros.
Nos últimos anos, porém, o avanço do ensino digital mudou essa lógica.
Um levantamento realizado pelo Núcleo de Dados do Grupo ND, com base no Censo da Educação Superior, identificou que 98 municípios catarinenses passaram a contar com ensino superior exclusivamente por conta do modelo à distância nos últimos 10 anos.
A nível nacional, os dados mostraram o cruzamento das linhas do ensino digital superando o do ensino presencial no Brasil em 2024. Fenômeno que Santa Catarina viu acontecer em 2021.
A vanguarda traz uma posição de liderança no último censo. Entre todas as unidades federativas do país, a proporção de alunos matriculados no EaD em relação ao presencial em SC é a maior do Brasil. Os dados mostram que 58,5% dos alunos do ensino superior do Estado estão no modelo digital.
Tal avanço digital impulsionou o alcance do ensino superior em Santa Catarina. Em 2014, 90 municípios contavam com universitários. Dez anos depois, o número saltou para 163.
A virada de chave no perfil dos universitários
O modelo de ensino à distância operou uma inversão no perfil tradicional do estudante universitário. Enquanto as salas de aula físicas do ensino presencial continuam majoritariamente ocupadas por jovens recém-saídos do Ensino Médio, que representam 69,08% das matrículas nessa modalidade, o digital é sustentado por adultos. Os microdados do Censo da Educação Superior revelam que 64,63% dos acadêmicos do EaD em Santa Catarina estão na faixa etária entre 25 e 49 anos.
“Estamos falando de um jovem que já não é mais tão jovem, que já está de alguma maneira inserido no mundo do trabalho, muitas vezes é chefe de família, possui baixa renda e é egresso da escola pública”, analisa o professor Mozart Neves, titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira da USP.
Para este contingente, conforme aponta o especialista, a flexibilidade de horários e o custo reduzido das mensalidades são os fatores que possibilitam o ingresso no ensino superior de vários novos perfis de estudantes.
Foram esses fatores, somados a uma rede de apoio presencial, que permitiu à monitora de biblioteca Mônika Regina Fernandes, de 45 anos, concluir a graduação em Ciências Biológicas no polo da UDESC em Joinville, dividindo as bancadas de estudo com seu pai, Nestor Fernandes, de 65 anos.
Monika e o pai, Nestor, juntos na cerimônia de formaturaFoto: Arquivo Pessoal/Monika Fernandes
Para o ex-metalúrgico aposentado após décadas de trabalho na indústria local, e que possuía apenas o técnico em magistério, a oportunidade ganhou contornos de resgate biográfico.
“Uma irmã dele lembra que, quando ele era criança, vivia catando bicho e dizia que já era biólogo sem saber. O sonho dele era fazer uma faculdade; ele não queria morrer sem ter um diploma”, relata Mônika.
A rotina de estudos revelou a disparidade de tempo e dedicação entre as duas gerações de universitários trabalhadores no modelo digital. Enquanto Mônica dividia-se entre a jornada de trabalho e as disciplinas acadêmicas, Nestor transformou o período de aposentadoria em um regime integral de estudos domésticos.
Essa imersão refletiu-se de forma direta no desempenho técnico das avaliações do polo. “Ele passava o dia inteiro estudando porque dizia que tinha que saber de verdade. Eu olhava e pensava: ‘Meu Deus, ele está sabendo mais do que eu’. Muitas vezes ele tirava notas bem melhores que as minhas nas provas”, relembra a filha, que utilizou o novo diploma para atuar temporariamente como professora de Biologia na rede estadual de ensino.
Nestor, aos 64 anos, foi o universitário mais velho entre todos os polosFoto: Arquivo Pessoal/Monika Fernandes
A sala de aula compartilhada em casa serviu como um antídoto ao isolamento pedagógico frequentemente associado ao ensino remoto. Pai e filha articularam uma dinâmica em que todas as atividades acadêmicas eram executadas de forma conjunta, culminando no desenvolvimento e na apresentação de um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em dupla.
Aos 64 anos, Nestor foi identificado como o acadêmico mais idoso entre os polos avaliados e, em vez de subir ao palco de maneira individualizada, recebeu o diploma de forma simultânea à filha. “Conseguimos formar um grupo de estudos muito unido no polo por ser uma turma pequena. Na formatura, eles quebraram o protocolo oficial para que nós dois recebêssemos o diploma juntos, no mesmo instante”, conclui Mônika.
Por que SC virou a vanguarda do ensino digital no Brasil
De acordo com o professor Mozart Neves, Santa Catarina reúne condições históricas e estruturais únicas que explicam o fenômeno. Tendo percorrido o território catarinense por quatro anos no projeto ‘Santa Catarina pela Educação’, em parceria com a FIESC, ele aponta alguns fatores que ajudam o Estado a se destacar na educação digital.
“O setor produtivo é muito articulado com o setor formativo, algo que é muito difícil de encontrar pelo resto do Brasil.” Para o especialista, isso cria um ambiente onde o estudante do interior consegue reverter o aprendizado diretamente para a comunidade, reduzindo o antigo abismo de oportunidades em relação aos grandes centros urbanos.
“Santa Catarina tem todo um ambiente favorável a você fazer esse processo de disseminação usando EaD. Você tem um ecossistema muito favorável ao crescimento do aluno, porque é um sistema organizado. Ele pode fazer um EaD muito mais vinculado ao setor produtivo local, onde vai aumentar as chances de empregabilidade dele e de desenvolvimento profissional. Se há um lugar onde o EaD pode dar certo pela organização territorial do mundo do trabalho, eu diria que é no estado de Santa Catarina.”
A retenção dessas frentes de trabalho no interior reverbera diretamente na dinâmica econômica regional, alterando o panorama produtivo de cidades historicamente dependentes do setor primário. O levantamento do Núcleo de Dados aponta uma correlação: quanto menor o porte do município, maior é a sua dependência estatística do ensino digital. Nas cidades catarinenses com população de até 20 mil habitantes, o EaD já responde por 87,53% do total de estudantes matriculados no ensino superior.
A descentralização do conhecimento técnico permitiu ao engenheiro Régis Chrystian, de 42 anos, estabelecer uma lógica de atuação multifocal a partir de Navegantes, no Litoral Norte do Estado. Após concluir três engenharias no modelo presencial (Civil, Ambiental e de Segurança do Trabalho), ele recorreu ao formato EaD para cursar as graduações de Engenharia Química e Engenharia Mecânica. O objetivo é estritamente pragmático: aplicar o conhecimento na verticalização de seus próprios negócios.
“Cada engenharia que faço, eu crio um negócio novo. Tenho uma assessoria de sustentabilidade com software próprio em Navegantes, uma indústria de equipamentos de proteção ambiental em Curitiba e uma startup de gestão de ativos de segurança contra incêndio com clientes em todo o Brasil”, explica Régis, que atualmente emprega cerca de 30 pessoas em regimes diretos e contratos PJ.
Para o empresário, o deslocamento diário e noturno até um campus físico inviabilizaria a expansão das empresas. “O EaD resolveu um problema estrutural de tempo. No domingo, ao final da tarde, eu sento, assisto às videoaulas, faço os exercícios e, a cada dois meses, vou ao polo realizar as avaliações presenciais”.
Empreendedor, Regis Chrystian se formou em duas engenharias para otimizar os negóciosFoto: Arquivo Pessoal/Regis Chrystian
Testes do mercado
Em um cenário que flerta com o pleno emprego e com indústrias operando no limite de suas capacidades, os recrutadores catarinenses praticamente aboliram o filtro que separava os egressos das salas físicas e virtuais.
De acordo com Diego Martins, presidente da ABRH/SC (Associação Brasileira de Recursos Humanos), o mercado local hoje penaliza a inércia, não o formato da graduação.
“Já pesou no passado, mas hoje o fator experiência e o quanto o profissional consegue colocar a formação em prática têm um peso muito maior do que o aspecto se a formação foi presencial ou EaD”, afirma Martins. O dirigente aponta que o ecossistema corporativo catarinense enfrenta um apagão estrutural que torna anacrônica qualquer discriminação de currículo por sua origem digital.
“O grande desafio hoje de Santa Catarina é a escassez de mão de obra que estamos vivendo em um momento de pleno emprego. Temos visto com muita normalidade empresas levando mais de seis meses para preencher posições importantes por falta de profissionais aptos, que demonstrem um grau de profundidade.”
Martins observa que a interiorização do ensino superior mexe com a percepção das empresas locais, que passam a contar com quadros técnicos formados na própria comunidade, reduzindo custos de contratação e rotatividade.
A mudança cultural também ocorre nas grandes consultorias de recrutamento executivo. Júlio Izaga, gerente regional da Robert Half, destaca que em regiões com forte apelo agroindustrial ou logístico, como o Vale do Itajaí e o Norte catarinense, a comprovação de resultados práticos mitigou o antigo preconceito contra o diploma digital. “Cidades pequenas que eram estritamente voltadas para o agronegócio estão desenvolvendo pessoas para atender às indústrias satélites de seu entorno”.
Izaga explica que o avanço tecnológico e a velocidade com que as ferramentas de trabalho se tornam obsoletas deslocaram o foco dos processos seletivos do background acadêmico tradicional para a capacidade de autoaprendizagem e adaptabilidade, competências que, por natureza, o estudante de EaD precisa desenvolver para concluir o curso.
“A não ser que seja um processo para um estágio muito inicial, onde o jovem ainda não tem massa crítica, o mercado de trabalho não quer saber se você se formou à distância ou presencial. O mercado quer saber o que você entrega”, sentencia Izaga. Para o executivo, o dinamismo do mercado catarinense consolidou uma realidade onde o comportamento e a postura proativa superam o peso técnico da instituição de ensino.
“Eu acredito sim que as soft skills vão superar o diploma. Até porque são essas habilidades comportamentais que te fazem buscar um conhecimento que muitas vezes não está no conteúdo programático das faculdades. A informação está globalizada e fácil; só não se capacita quem não quer buscar.”
É válido lembrar que, hoje, passar pelo crivo de sistemas automatizados faz parte do processo de contratação. Com o alto volume de currículos digitais processados mensalmente pelas empresas, a inteligência artificial tornou-se o primeiro filtro do mercado de trabalho.
“A plataforma não segrega candidatos pela modalidade de formação. Na prática, os agentes de IA não fazem distinção entre diploma EaD ou presencial na organização inicial das candidaturas”, garante Jhenyffer Coutinho, Head de Inovação para Pessoas Candidatas na Gupy, que é a plataforma de recrutamento digital líder de mercado no Brasil, centralizando os processos seletivos de milhares de grandes empresas.
Coutinho detalha que os algoritmos atuam estruturados em critérios de habilidades técnicas, competências comportamentais e aderência ao escopo da função, seguindo o modelo skills-first (habilidades primeiro). “O formato da graduação não é um critério eliminatório do modelo. O mercado está ampliando os critérios de avaliação, abrindo portas para formações não-tradicionais, desde que o profissional comprove o resultado prático no dia a dia”.
Polos produtivos e ensino híbrido impulsionam a retenção
E isso se enxerga na própria maneira que algumas instituições de ensino têm se organizado. A UniSENAI, reconhecida pelo MEC como Centro Universitário, estruturou seu portfólio digital focado em cinco áreas estratégicas conectados aos polos produtivos catarinenses: Ciência de Dados/IA, Manufatura Avançada, Bioeconomia, Biotecnologia e Indústria Têxtil.
“O digital não é mais uma escolha, a indústria não pode esperar. Mas o nosso diferencial é o conceito de aprender fazendo”, detalha Bárbara Mellado, pró-reitora de Pós-graduação e Extensão da UniSenai SC. A instituição desenvolveu parcerias internacionais para implementar simuladores em tempo real para os cursos de TI (como Análise e Desenvolvimento de Sistemas) e programas de residência em Inteligência Artificial.
Um dos principais cases é o MBA em Mobilidade Elétrica e Energias Renováveis, baseado em Jaraguá do Sul, que atende profissionais de 90 empresas do país com aulas síncronas semanais e imersões práticas facultativas. A fórmula resultou em uma taxa de retenção atípica para o mercado de ensino à distância: 99% de permanência dos alunos.
“A grade não nasce da academia, ela é construída 100% por competências demandadas pelo setor produtivo. Não ensinamos o que o mercado não está esperando lá fora”, conclui Mellado.
Universidades privadas dominam mercado do ensino superior digital
A expansão acelerada do EaD expõe uma assimetria regulatória: o isolamento digitalizado é financiado quase inteiramente pelo setor privado. Das 268.875 matrículas ativas na modalidade EaD em Santa Catarina, 266.913 estavam vinculadas a instituições particulares, de acordo com o último Censo de Educação, de 2024. O ensino superior público estadual e federal responde a apenas 1.962 estudantes no ambiente digital, o que representa menos de 1% do mercado global.
Nesse cenário, o professor da USP, Mozart Neves, faz uma ressalva quanto ao papel fiscalizador dos órgãos públicos frente ao dado de que apenas 1% dos cursos digitais do país conquistaram nota máxima no Enade. Para ele, o estado precisa liderar também a régua da qualidade.
“O EaD tem um papel central de chegar onde o presencial não tem como. O problema é que não houve controle da qualidade. É um copo meio cheio: aquela parte cheia, aqueles que tiveram um bom EaD, eles estão aí empregados, estão gerando processos de desenvolvimento profissional. Mas aqueles que estiveram na parte vazia do copo tiveram o diploma, mas não desenvolveram as habilidades profissionais necessárias para ingressar no mundo do trabalho.”
Para organizações internacionais de monitoramento educacional, existem alertas sobre o balizamento da qualidade do ensino oferecido às populações mais vulneráveis do interior. “A ausência física do setor público em dezenas de municípios abre espaço para que o mercado privado digital seja a única referência”, adverte Rebeca Otero, coordenadora do Setor de Educação da UNESCO no Brasil. “A UNESCO defende que o Estado deve ser protagonista e regulador, garantindo que a educação seja tratada como bem público, e não apenas como um serviço comercial de baixo custo que arrisque consolidar uma formação de segunda classe”.
O pesquisador canadense Tony Bates, uma das principais autoridades globais em aprendizagem online, reforçou, em entrevista concedida ao Núcleo de Dados, a necessidade de uma fiscalização estatal rigorosa sobre os polos com fins lucrativos.
“Instituições privadas migram para o ensino online porque os custos de infraestrutura e edifícios são drasticamente menores. Mas o governo precisa auditar quais são os suportes reais dados aos estudantes e qual a qualificação dos tutores contratados”, pontua Bates. O especialista sinaliza o risco econômico de uma expansão baseada apenas em volumes de matrículas: “Se o país não obtiver graduados de alta qualidade, o desenvolvimento econômico geral será prejudicado. Não é uma questão sobre o ensino ser online ou presencial, é sobre controle de qualidade”.
Bates ressalta que o desenho do ensino digital puramente focado na redução de custos operacionais, sem suporte e tutoria qualificada, deságua em altos índices de evasão e diplomas sem valor de mercado.
“Tivemos um problema um tanto semelhante aqui no Canadá, e o que aconteceu foi que muitas instituições privadas se estabeleceram como faculdades ou universidades e forneceram uma educação de qualidade muito baixa. No final, o governo federal teve que intervir para impedir que isso continuasse acontecendo. Em algum momento, o governo precisa intervir, e quanto mais tempo eles demorarem, mais difícil será.”
Como recomendação aos formuladores de políticas públicas no Brasil, Bates sugere que o MEC (Ministério da Educação) e os conselhos estaduais estabeleçam conselhos de garantia de qualidade unindo técnicos governamentais e representantes das universidades públicas de maior prestígio, utilizando modelos como o da África do Sul e o da Índia para frear o avanço desordenado.
“O governo deve se preocupar com a qualidade do ensino superior porque isso é também uma questão econômica. Se o país não obtiver graduados de alta qualidade, não terá funcionários qualificados e não terá desenvolvimento econômico como resultado. Não são apenas os estudantes que sofrem com isso, é todo o país que sofre.”
O Ministério da Educação implementou uma nova legislação federal restritiva para o setor em maio de 2025. O novo marco regulatório proibiu a oferta 100% digital para carreiras regulamentadas da saúde e do direito (como Medicina, Enfermagem e Direito) e impôs uma carga horária mínima de 50% de presencialidade para os cursos de engenharia e licenciaturas, transformando-os obrigatoriamente em semipresenciais.
Quase inexistente, ensino público EaD aposta em “nichos de excelência”
Se os microdados do Censo da Educação Superior expõem uma participação quase invisível do poder público no EaD catarinense, o modelo adotado pelas instituições oficiais não busca a disputa por volume de mercado. Segundo Luciano Hack, diretor do CEAD/UDESC (Centro de Educação a Distância da Universidade do Estado de Santa Catarina), a meta não é a escala comercial, mas a interiorização de carreiras estratégicas que o setor privado costuma negligenciar por razões de custo, como a formação de professores.
“A nossa pegada aqui é totalmente diferente do setor privado”, adverte Hack. “Enquanto eles trabalham na lógica do mercado, da escala, de ter milhares de alunos em uma única plataforma digital, a UDESC busca turmas limitadas, onde o processo de ensino é conduzido diretamente por professores mestres e doutores do nosso quadro, e não por tutores terceirizados de call centers.”
Para viabilizar a capilaridade da universidade pública nos municípios de pequeno porte sem estrangular o orçamento do Estado, a UDESC acionou uma estratégia de inteligência logística que aproveita a própria geografia descentralizada de Santa Catarina. O modelo baseia-se em um arranjo de cooperação técnica com as prefeituras locais, transformando a infraestrutura escolar básica de SC em braços acadêmicos avançados durante o período noturno.
“Santa Catarina é um estado diferenciado porque não temos a população hiperconcentrada apenas na Capital, temos cidades de médio e pequeno porte muito fortes e distribuídas por todas as regiões”, analisa o diretor do CEAD. “Nós aproveitamos essa característica nos nossos polos. Normalmente, a estrutura funciona dentro de uma escola municipal ou estadual que atende crianças e adolescentes durante o dia. À noite, esse espaço se transforma em um polo universitário da UDESC. O local já tem salas, computadores e internet estável. Otimizamos o recurso público que já existe, sem a necessidade de erguer prédios novos.”
Essa exigência de uma estrutura física ativa e de avaliações obrigatoriamente presenciais é o que, segundo Hack, impede a rede pública de acompanhar a velocidade de expansão das mantenedoras privadas, mas funciona como a principal vacina contra a precarização do canudo apontada pelo Enade.
“O grande gargalo da expansão pública no EaD não é a tecnologia das plataformas, mas a logística de manter a qualidade. Nós exigimos que o estudante compareça ao polo, faça exames supervisionados e tenha suporte de laboratório. Essa rigidez limita a nossa capacidade de escala massiva, mas é o que protege o valor real do diploma no mercado de trabalho catarinense”, conclui Hack.
A rigidez das avaliações e o sentimento de pertencimento são apontados pelos gestores públicos como os principais fatores para conter os índices de evasão escolar, que historicamente superam a marca de 40% no EaD nacional. “A legislação antiga já exigia que as avaliações fossem presenciais nos polos e valessem mais da metade da nota do curso”, explica Luciano Hack, diretor-geral do CEAD/UDESC. O centro opera com 23 polos ativos distribuídos de forma descentralizada pelo território catarinense. “Nossos professores se deslocam constantemente até os polos para seminários e práticas. Mantemos a figura do tutor presencial para aproximar os alunos, criando grupos de estudo, porque o isolamento total estimula a desistência”.
Na prática, a linha que divide o EaD “comercial” dos modelos de alta qualidade está na presencialidade e na estruturação de atividades práticas. Críticas recorrentes ao formato online apontam para o isolamento do aluno e a transposição simplista de apostilas físicas para PDFs na tela.
A professora de laboratório Luana Branco Chupel, moradora de Lages, experimentou os dois lados do sistema. Antes de se graduar, ingressou em uma instituição privada de EaD, mas interrompeu o curso no primeiro semestre. “Eu sentia que o professor lia o material que estava na tela e pronto, a aula acabava. Para pagar por um ensino onde eu teria que fazer tudo sozinha, preferi trancar e buscar outra alternativa”, relata. A alternativa veio com a abertura das vagas de Ciências Biológicas no Centro de Educação a Distância (CEAD) da UDESC.
Luana em intercâmbio a Universidade do PortoFoto: Arquivo Pessoal/ Luana Chupel
A experiência no modelo público e semipresencial permitiu a Luana disputar um edital de intercâmbio internacional para a Universidade do Porto, em Portugal, com custos cobertos por bolsas da instituição catarinense. “O corpo docente da UDESC era composto por mestres e doutores que davam suporte real. Quando cheguei em Portugal, vi que minha base técnica não era desproporcional à dos estudantes europeus”, afirma Luana, que foi contratada pela rede particular de ensino de Lages um mês após colar grau e hoje cursa pós-graduação em Oceanografia na UFSC, também na modalidade EaD.
O que a Estônia, referência em digitalização, compreendeu sobre o EaD
Na Europa, o debate sobre o avanço do ensino digital já superou a barreira da conectividade para se concentrar estritamente na experiência de aprendizagem.
Na Estônia, país reconhecido globalmente como referência na digitalização de serviços, o conceito de universidades projetadas exclusivamente para o formato remoto ou isolado sequer existe. Por lá, o ecossistema digital foi absorvido de forma orgânica pelas instituições tradicionais e consolidadas, funcionando como uma extensão natural da sala de aula e sob rígidos critérios de controle estatal.
“Não temos universidades baseadas apenas no ensino à distância. O que temos são cursos e programas dentro de universidades tradicionais que utilizam soluções digitais. É uma abordagem combinada”, relata Riin Saadjärv, chefe da Área de Tecnologia Educacional do Ministério da Educação e Pesquisa da Estônia. Segundo a gestora, o modelo preserva a reputação de instituições seculares, como a Universidade de Tartu, garantindo que o estudante do ambiente virtual seja submetido ao mesmo rigor acadêmico do regime presencial.
“O governo financia e gerencia o sistema de ensino superior por meio de contratos administrativos com as universidades públicas. Nesses contratos, definimos as metas e as obrigações de qualidade de forma muito clara. Se as diretrizes não são cumpridas, o financiamento é revisto”, pontua.
Para balizar essa engrenagem, o país adota um padrão de qualidade virtual unificado (o e-standard), que avalia desde o desenho pedagógico dos ambientes virtuais até a interatividade real proposta pelas disciplinas. O modelo estoniano combate o formato passivo — onde o aluno apenas assiste a vídeos gravados ou lê PDFs sem suporte. “Se você move seu curso para o ambiente digital, isso não significa apenas colocar os materiais online e pedir para lerem. É preciso mudar toda a metodologia”, adverte Saadjärv. “Nossos critérios avaliam se o curso promove colaboração entre estudantes, se há trabalhos em grupo online e como o professor orienta e dá feedback em tempo real. Não permitimos que o ensino digital vire um processo solitário”.
O grande diferencial para evitar a sobrecarga ou o isolamento dos docentes foi a criação de uma carreira técnica de suporte: o Tecnólogo Educacional. Trata-se de um especialista inserido dentro das faculdades e escolas com a função exclusiva de fazer a ponte entre a pedagogia e a tecnologia. “O professor é especialista na sua matéria, mas pode não saber como engajar alunos através de uma tela. O tecnólogo educacional senta com esse professor e projeta o curso digital do zero, escolhendo as melhores ferramentas e metodologias ativas”, explica a chefe do Ministério da Educação.
Essa mentalidade de vanguarda permitiu que, recentemente, as universidades estonianas firmassem um consórcio nacional para fornecer licenças corporativas pagas de ferramentas avançadas de Inteligência Artificial, como o Google Gemini e o NotebookLM, para seus palestrantes e pesquisadores, incluindo capacitações práticas obrigatórias. O foco principal está na base da pirâmide. “Damos atenção especial aos nossos alunos que estão sendo treinados para serem os futuros professores. Implementamos o ensino com IA diretamente nos currículos das licenciaturas. Queremos que eles saiam da graduação sabendo usar a tecnologia para potencializar suas aulas, e não para serem substituídos por ela”, detalha Saadjärv.
A posição de liderança da Estônia foi construída a partir de políticas públicas iniciadas ainda nos anos 1990, logo após a restauração da independência do país, por meio do programa nacional Tiigrihüpe (O Salto do Tigre). Riin Saadjärv aponta que o sucesso educacional do país baseia-se em três pilares históricos inegociáveis: infraestrutura física, conexões seguras e competências humanas.
“O primeiro pilar são os dispositivos; as instituições precisam ter equipamentos de ponta para criar o ambiente. O segundo é a conectividade rápida e estável em todo o território. Mas o terceiro, e mais importante, são as habilidades digitais das pessoas. Sem treinar professores e alunos para extraírem valor pedagógico dessas ferramentas, a tecnologia se torna inútil”, analisa. Diferente do Brasil, onde o acesso básico à internet ainda é um gargalo de exclusão social no interior, a Estônia universalizou a infraestrutura há três décadas. “Nos anos 90, o governo decidiu que todas as escolas deveriam ter computadores e acesso à rede. Isso moldou uma geração que hoje enxerga a tecnologia não como um mistério ou um privilégio, mas como uma utilidade básica, um direito”, conclui a gestora.
“A tecnologia deve complementar, e não substituir, a dimensão prática da formação humana”, sintetiza Rebeca Otero, coordenadora do Setor de Educação da UNESCO no Brasil, endossando o exemplo europeu.
