A aliança mais antiga do mundo (Portugal e Inglaterra, 1386) sobreviveu 640 anos porque sempre foi útil — não porque os dois se amavam. O Alaska foi vendido por 2 centavos o acre porque a Rússia achava que não valia nada. A diplomacia real raramente segue o roteiro das faculdades de relações internacionaisFoto: Imagem gerada por IA/ND Mais
Nas faculdades de direito e relações internacionais, a diplomacia é ensinada como uma prática nobre — a arte de resolver conflitos através do diálogo, da negociação e do reconhecimento dos direitos soberanos de cada nação. Tratados são apresentados como instrumentos de equilíbrio racional entre interesses legítimos.
A história, porém, tem uma visão diferente. Olhando para os acordos reais que países reais assinaram ao longo dos séculos, a diplomacia é menos nobre e muito mais estranha do que qualquer professor se arriscaria a admitir.
Portugal e Inglaterra: 640 anos de aliança que sobreviveu a tudo — incluindo um porco e duas guerras mundiais
A Aliança Anglo-Portuguesa, assinada em Windsor em 1386, é o tratado bilateral mais antigo do mundo ainda em vigor. Seis séculos e quarenta anos de aliança ininterrupta — sobrevivendo a impérios, revoluções, guerras mundiais, o surgimento e o colapso da União Soviética, o Brexit e mais de 100 primeiros-ministros britânicos.
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A razão original era pragmática ao ponto do constrangimento: Portugal precisava de apoio militar contra Castela (atual Espanha), e a Inglaterra queria uma base naval no Atlântico e acesso ao comércio lusitano.
Nenhum dos dois tinha sentimentos particularmente calorosos pelo outro — tinham interesses que coincidiam naquele momento.
O vinho de Porto foi um subproduto feliz. Comerciantes ingleses estabelecidos em Portugal precisavam de algo para exportar, descobriram que o vinho do Douro viajava bem quando reforçado com aguardente, e criaram uma das bebidas mais associadas à Inglaterra que na verdade é completamente portuguesa.
O que a aliança mais antiga do mundo ensina sobre diplomacia
A Aliança Anglo-Portuguesa sobreviveu porque continuou sendo útil — não porque ambos os lados se amavam profundamente. Durante a Segunda Guerra Mundial, Portugal de Salazar tinha simpatias fascistas e relações comerciais com a Alemanha nazista.
Mas quando Churchill invocou o tratado de 1386, Salazar cedeu e permitiu o uso das bases nos Açores pela Marinha britânica — um ponto de apoio crucial para a Batalha do Atlântico.
Em 1982, quando a Argentina invadiu as Ilhas Malvinas, Portugal permitiu que aviões militares britânicos usassem o espaço aéreo e aeroportos portugueses — novamente, invocando o tratado de 1386.
Uma aliança de seis séculos baseada em interesses convergentes e vinho sobreviveu a monarquias absolutas, repúblicas, ditaduras, guerras e desacordos profundos — simplesmente porque nenhum dos dois lados achou mais conveniente cancelá-la do que mantê-la.
Tordesilhas (1494): quando dois países dividiram o mundo que ainda não tinham visto
Em 7 de junho de 1494, representantes de Portugal e Espanha se reuniram na cidade espanhola de Tordesillas e assinaram um tratado que dividia o mundo inteiro entre os dois reinos com uma linha vertical pelo Oceano Atlântico — 370 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde.
Tudo a oeste da linha: Espanha. Tudo a leste: Portugal.
O problema é que em 1494 nenhum dos dois países havia visto a maior parte do que estava dividindo. A América do Sul, a África subsaariana, a Índia, o sudeste asiático, a Oceania — nenhum europeu havia chegado à maioria desses lugares.
Os dois reinos dividiram o planeta com uma régua, sem ter ido lá, sem consultar nenhum dos habitantes e com a bênção do Papa Alexandre VI — que era espanhol, o que explica muito sobre onde a linha foi traçada.
O Brasil é Português por um acidente de geometria
Há uma consequência do Tratado de Tordesilhas que qualquer brasileiro deveria conhecer: o Brasil é de língua portuguesa porque a linha de Tordesilhas, por algum motivo que os negociadores portugueses talvez não conseguissem explicar totalmente, foi traçada de forma a incluir a costa leste da América do Sul no lado português.
Quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil em 1500, ele estava, tecnicamente, dentro do território que Portugal havia reservado para si seis anos antes de saber que existia. É como reservar o lugar numa fila sem saber que a fila leva a um tesouro.
O rei francês Francisco I ficou tão irritado com o tratado que disse uma das frases mais famosas da diplomacia: “Gostaria de ver a cláusula do testamento de Adão que divide o Novo Mundo entre meus irmãos, o Imperador Carlos V e o Rei de Portugal.”
O Alasca: a maior pechincha da história, vendida como desconto de liquidação
Em 1867, o Secretário de Estado americano William Seward negociou a compra do Alasca da Rússia pelo valor de US$ 7,2 milhões — aproximadamente 2 centavos por acre de terra.
A imprensa americana foi impiedosa. O Alasca foi chamado de “Loucura de Seward”, “A Caixa de Gelo de Seward”, “Walrussia” e vários outros apelidos que sugeriam que Seward havia perdido o juízo ao comprar uma terra congelada, habitada por ursos polares e sem nenhum valor econômico aparente.
Por que a Rússia vendeu? Pelos motivos mais pragmáticos possíveis. O Império Russo havia acabado de perder a Guerra da Crimeia e precisava de dinheiro.
Achava que a Inglaterra poderia simplesmente tomar o Alasca em caso de conflito — e vender para os EUA era melhor do que perder para os britânicos. E genuinamente achava que a terra não valia muito.
O preço da maior promoção da história
Vinte e nove anos depois da compra, em 1896, foi descoberto ouro no Alaska — o que desencadeou a Corrida do Ouro do Klondike. Seguiram-se descobertas de carvão, cobre e, no século XX, imensas reservas de petróleo. O campo petrolífero de Prudhoe Bay, descoberto em 1968, é um dos maiores da América do Norte.
A estimativa conservadora do valor total dos recursos naturais do Alaska supera US$ 1 trilhão — o retorno de um investimento de US$ 7,2 milhões em 1867.
Mas o valor geopolítico é ainda maior. O Alaska dá aos EUA fronteira com a Rússia através do Estreito de Bering, posicionamento estratégico no Ártico — que como cobrimos aqui ontem está se tornando a fronteira mais disputada do século XXI — e acesso ao Oceano Pacífico pelo norte.
A Rússia que vendeu o Alaska porque achava que não valia nada hoje olha para a fronteira norte do seu maior adversário e lamenta a decisão de 1867.
A “Loucura de Seward” foi, pelo retrovisor da história, uma das melhores compras de qualquer governo em qualquer época.
A França, o Rainbow Warrior e o acordo diplomático mais descarado da história recente
Em julho de 1985, agentes dos serviços secretos franceses infiltraram-se no porto de Auckland, na Nova Zelândia, e colocaram bombas no casco do Rainbow Warrior — navio do Greenpeace que estava prestes a partir para protestar contra testes nucleares franceses no Atol de Mururoa, no Pacífico.
As explosões mataram um fotógrafo português que estava a bordo. Dois agentes franceses foram presos, processados e condenados pela justiça neozelandesa a dez anos de prisão.
O que aconteceu a seguir é um dos casos mais reveladores sobre como a diplomacia funciona quando uma potência média decide que não quer seguir as regras.
A França ameaçou bloquear as exportações de cordeiro neozelandês para o mercado europeu — do qual a Nova Zelândia dependia profundamente. Era uma ameaça econômica direta e descarada: solte nossos espiões ou destruiremos sua economia.
A “reconciliação” que não foi
A ONU mediou um acordo: a França pagaria NZ$ 13 milhões em compensação, e a Nova Zelândia transferiria os agentes para custódia francesa numa base militar na ilha de Hao, onde permaneceriam por três anos.
A França prometeu. E então, menos de três anos depois, transferiu os agentes de volta à França, alegando “razões de saúde” — o que era, com toda a educação disponível, mentira. A Nova Zelândia protestou furiosamente. A França foi completamente indiferente aos protestos. Os agentes nunca cumpriram a pena completa.
O acordo revelou algo que faculdades de relações internacionais não costumam ensinar com tanta clareza: quando uma potência suficientemente grande decide que não quer cumprir um acordo, geralmente não cumpre.
E a potência menor tem as opções que suas capacidades permitem — que no caso da Nova Zelândia versus a França eram limitadas.
A Guerra do Porco: como um animal quase iniciou a Terceira Guerra Anglo-Americana
Em 1859, na Ilha de San Juan, no estreito que separa o atual estado americano de Washington do Canadá, um agricultor americano chamado Lyman Cutler atirou e matou um porco que havia invadido seu canteiro de batatas.
O porco pertencia à Hudson’s Bay Company britânica. O incidente — que causou a morte de exatamente um animal — escalou para um confronto militar entre tropas americanas e navios de guerra britânicos que durou treze anos.
Soldados americanos e britânicos ocuparam lados opostos da ilha — nunca chegando a se matar, mas vivendo num standoff militar que incluía reuniões sociais ocasionais entre os dois lados (inclusive festas de Natal conjuntas, segundo registros históricos).
A situação foi finalmente resolvida em 1872 — quando o Kaiser Guilherme I da Alemanha foi chamado como árbitro e decidiu que a ilha pertencia aos EUA.
A Ilha San Juan é hoje território americano. O porco que causou tudo isso foi a única baixa do conflito.
O Tratado da Antártica: o acordo bizarro que funciona melhor do que deveria
Em 1959, doze países — incluindo EUA, URSS, Argentina, Chile, Grã-Bretanha e Austrália, que tinham reivindicações territoriais sobrepostas e conflitantes sobre o continente — assinaram o Tratado da Antártica.
O acordo determinava que a Antártica seria usada exclusivamente para fins pacíficos e científicos, que nenhuma atividade militar seria permitida, que todos os países podiam inspecionar as instalações de qualquer outro país a qualquer momento, e que todas as reivindicações territoriais existentes ficavam “congeladas” — nem reconhecidas nem rejeitadas.
Era um acordo que pedia a países com sérias disputas territoriais que simplesmente… parassem de disputar. No meio da Guerra Fria. Com recursos naturais potencialmente imensos no subsolo antártico.
E funcionou. Em 2026, 53 países fazem parte do Tratado da Antártica, que é amplamente considerado um dos acordos multilaterais mais bem-sucedidos da história.
Não há bases militares no continente. Cientistas de países que são adversários em outros contextos trabalham lado a lado em estações de pesquisa. A Antártica permanece o único continente do planeta sem conflitos ativos.
O Tratado da Antártica funciona por uma razão simples: nenhum país ainda calculou que quebrar o acordo vale mais do que mantê-lo. Quando esse cálculo mudar — e com o aquecimento global abrindo recursos do subsolo antártico — a história diplomática do continente pode mudar rapidamente.
O que todos esses acordos revelam
A diplomacia real, olhando para esses casos, tem algumas características constantes que diferem bastante da versão das faculdades.
A primeira: acordos são mantidos enquanto são úteis e quebrados quando deixam de ser. A França não cumpriu o acordo sobre os agentes do Rainbow Warrior porque calculou que o custo de não cumprir era menor do que o benefício de liberar seus agentes. Portugal cumpriu o tratado de 1386 por 640 anos porque sempre foi conveniente fazê-lo.
A segunda: os melhores acordos são os que alinham interesses, não os que apelam para princípios. O Tratado da Antártica funciona porque nenhum país encontrou ainda uma forma de lucrar o suficiente rompendo-o.
O Tratado de Tordesilhas funcionou enquanto Portugal e Espanha eram as únicas potências marítimas — e colapsou quando Inglaterra, França e Holanda simplesmente ignoraram uma linha traçada por uma potência que já não era dominante.
A terceira — e talvez a mais importante: as consequências de acordos raramente são as previstas. A Rússia que vendeu o Alaska achou que estava se livrando de um ativo inútil. Os negociadores de Tordesilhas não imaginavam que estavam criando o Brasil. O fazendeiro que matou o porco não imaginou que causaria treze anos de standoff militar.
A diplomacia é, no fundo, a arte de lidar com consequências que ninguém previu completamente — e fingir que o resultado era o que se planejava desde o início.
