O presidente do Banco de Brasília (BRB), Nelson Antônio de Souza, afirmou nesta terça-feira (9) que não sabe quantas vezes o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, esteve na sede da instituição financeira. A declaração foi dada durante audiência da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, convocada para discutir os impactos da crise do Master sobre o banco estatal do Distrito Federal.
Questionado por parlamentares sobre a relação entre o BRB e Vorcaro, Souza respondeu de forma direta:
“Não, não tenho realmente esses detalhes.”
A audiência ocorreu em meio ao avanço das investigações sobre as operações entre o BRB e o Banco Master, que resultaram em um rombo estimado em R$ 8,8 bilhões e levaram o governo do Distrito Federal a estruturar uma operação financeira inédita para evitar a liquidação da instituição pelo Banco Central.
Ligação entre Master e BRB chegou a 23,5% das ações
Durante a sessão, Nelson de Souza confirmou que pessoas ligadas ao grupo de Daniel Vorcaro chegaram a controlar 23,5% das ações do BRB.
Segundo ele, a atual administração conseguiu obter na Justiça o arresto dessa participação societária.
“Conseguimos um arresto de 23,5% das ações que estavam em poder, não digo do Vorcaro, mas do grupo”afirmou.
O presidente também informou que o banco buscará o ressarcimento judicial dos prejuízos e pretende responsabilizar ex-administradores envolvidos nas operações investigadas.
CAE recebe o presidente do BRBFoto: Andressa Anholete
BRB admite prejuízo de R$ 8,8 bilhões
Ao longo da audiência, Nelson de Souza reconheceu que os negócios firmados entre BRB e Banco Master movimentaram cerca de R$ 30 bilhões entre 2024 e 2025.
Segundo ele, R$ 21,9 bilhões permaneceram contabilizados como ativos do banco estatal. Parte dessas operações está sob investigação após a Polícia Federal apontar a aquisição de aproximadamente R$ 12 bilhões em carteiras consideradas de baixa recuperação.
O prejuízo consolidado foi estimado em R$ 8,8 bilhões.
“O BRB foi a maior vítima dessa fraude. Fomos o banco mais fraudado nesse episódio” declarou.
Socorro financeiro prevê aporte de R$ 8,8 bilhões
Para evitar uma intervenção do Banco Central, o governo do Distrito Federal negocia uma operação de capitalização do BRB.
O plano prevê:
- R$ 6,6 bilhões por meio de empréstimo junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC);
- R$ 2,2 bilhões provenientes da securitização da dívida ativa do Distrito Federal.
Segundo Souza, os recursos permitirão que o banco volte a cumprir todos os índices regulatórios exigidos pelo sistema financeiro.
“Esse aporte vai enquadrar todos os índices necessários para que possamos operar normalmente” afirmou.
A expectativa da direção do banco é que, após a reestruturação, a instituição volte a registrar lucro superior a R$ 1 bilhão a partir de 2028.
Governo do DF busca aprovação de empréstimo
O socorro financeiro já recebeu aval do Supremo Tribunal Federal (STF) após acordo firmado entre o Distrito Federal e a União.
A governadora do DF, Celina Leão, enviou à Câmara Legislativa um projeto autorizando a contratação do empréstimo.
Como garantia da operação, o governo distrital ofereceu receitas do Fundo de Participação dos Estados (FPE) e do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). O acordo também prevê restrições fiscais, incluindo congelamento de reajustes salariais, realização de concursos e concessão de incentivos tributários até a regularização das contas públicas.
Renan questiona plano e ausência do balanço
O plano de recuperação recebeu críticas de senadores durante a audiência. O presidente da CAE, Renan Calheiros, questionou a homologação do acordo sem a divulgação do balanço financeiro do BRB referente a 2025.
“Eu não entendo como o Supremo aprova um plano sem que o BRB publique o balanço de 2025. Como se faz um plano sem premissa, sem base?” afirmou.
O balanço deveria ter sido divulgado até 31 de março, mas segue pendente.
Nelson Antônio assumiu comando do BRB após escândalo do Banco Master.Foto: Foto: Divulgação/BRB/ND Mais
Nelson de Souza também relatou os impactos pessoais da crise enfrentada pela instituição desde que assumiu a presidência do banco, em novembro de 2025, após a operação da Polícia Federal que atingiu o Banco Master e o BRB.
Segundo ele, foram quatro internações hospitalares em apenas seis meses.
“Não é fácil. Eu não sou político. Fui contratado para salvar o BRB”disse aos senadores.
O dirigente afirmou ainda que o atraso na divulgação do balanço tem provocado uma crescente “corrida por liquidez” e admitiu que a publicação das demonstrações financeiras é hoje uma das prioridades da instituição.
