Agricultores durante plantação no interior; indicadores econômicos de MS deverão ser tema em debates eleitorais de 2026 Foto: Álvaro Rezende/Secom-MS/Reprodução/ND Mais
A economia costuma estar presente em todas as eleições, seja no preço do pão comprado na padaria, no valor do aluguel ou na facilidade para encontrar emprego. Em Mato Grosso do Sul, os indicadores econômicos para 2026 mostram que o Estado vive um dos ciclos de crescimento econômico mais intensos de sua história recente.
O desempenho econômico positivo pode se transformar em ativo político para o governador Eduardo Riedel (PP), que deve disputar a reeleição. Ao mesmo tempo, abre espaço para que adversários, como Fábio Trad (PT) e João Henrique Catan (Novo), questionem se os benefícios desse crescimento estão chegando de forma equilibrada à população.
Eleições no Mato Grosso do Sul
Mato Grosso do Sul vive um boom econômico?
Os números ajudam a explicar por que a economia deve ocupar espaço central no debate eleitoral. Em 2025, Mato Grosso do Sul registrou crescimento econômico de 4,2%, o maior entre os estados brasileiros, segundo levantamento do Banco do Brasil. A recuperação da agropecuária, associada ao avanço da agroindústria, impulsionou o resultado.
Dados da Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação) apontam que o PIB (Produto Interno Bruto) estadual deve alcançar R$ 227,8 bilhões, com crescimento estimado em 6,8%, um dos maiores do país. Desde 2015, o Estado atraiu aproximadamente R$ 84 bilhões em investimentos privados, sendo quase R$ 44 bilhões apenas em 2024.
O resultado fortalece o discurso de continuidade da atual gestão, que tem apostado na atração de investimentos e na expansão industrial como marcas de governo.
O Vale da Celulose pode render dividendos políticos?
Poucas transformações econômicas impactaram tanto Mato Grosso do Sul nos últimos anos quanto a expansão da indústria da celulose. A área de florestas plantadas saltou de cerca de 300 mil hectares para 1,75 milhão de hectares em uma década. Os investimentos previstos para o setor ultrapassam R$ 70 bilhões até 2028.
Hoje, a cadeia da celulose representa 10,7% do PIB estadual, movimenta cerca de R$ 15,7 bilhões por ano e responde por mais de 40% das exportações sul-mato-grossenses. O setor impulsiona municípios como Ribas do Rio Pardo, Três Lagoas, Água Clara e Inocência, que vivem um processo acelerado de industrialização.
Campo de obras da nova fábrica de celulose da Arauco em Inocência, que promete ser a maior do mundo Foto: Álvaro Rezende/Secom-MS/Reprodução/ND Mais
O crescimento econômico nessas cidades, entretanto, também trouxe desafios. Aumento dos aluguéis, pressão sobre a rede pública de saúde, falta de moradias e necessidade de ampliação da infraestrutura urbana já fazem parte da realidade dos municípios que recebem os grandes empreendimentos.
A disputa política deve girar justamente em torno dessa questão: o crescimento econômico está chegando ao cotidiano da população ou está concentrado em alguns setores da economia?
Emprego recorde significa satisfação do eleitor?
O mercado de trabalho também apresenta resultados positivos. Mato Grosso do Sul encerrou 2025 com saldo de quase 20 mil novos empregos formais. O estoque total de trabalhadores com carteira assinada chegou a aproximadamente 690 mil vínculos.
Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que o Mato Grosso do Sul alcançou 1,46 milhão de pessoas ocupadas, o maior número da série histórica recente. O rendimento médio mensal dos trabalhadores chegou a R$ 3.727, o sétimo maior do país e acima da média nacional.
Pessoa segura carteira de trabalho na sede da Funtrab, em Campo Grande; indicadores econômicos, como a taxa de desemprego, devem entrar no debate eleitoralFoto: Bruno Rezende/Secom-MS/Reprodução/ND Mais
A taxa de desemprego também aparece entre as menores do Brasil. Depois de registrar 3,7% em 2024, caiu para 2,9% em 2025, ficando entre as três menores taxas nacionais.
Os setores que mais geraram vagas foram construção civil, serviços e indústria, impulsionados principalmente pelas obras e investimentos ligados ao avanço da celulose.
Ainda assim, os números revelam desigualdades. Enquanto trabalhadores com ensino superior completo recebem, em média, R$ 6.632 por mês, pessoas sem instrução formal têm rendimento médio de R$ 1.824. A diferença mostra que a geração de empregos não elimina automaticamente os desafios relacionados à renda e à qualidade de vida.
Outro fator que pode influenciar a eleição é a percepção distinta da economia entre Campo Grande e o interior. A Capital continua concentrando serviços, comércio, saúde e administração pública. Já municípios do chamado Vale da Celulose vivem uma dinâmica marcada por grandes obras, crescimento populacional e expansão industrial.
Essa diferença pode fazer com que os impactos econômicos sejam percebidos de formas distintas pelos eleitores, o que pode influenciar prioridades e demandas durante a campanha.
Exportações fortalecem discurso de prosperidade
O comércio exterior também reforça a narrativa de crescimento. Em 2025, Mato Grosso do Sul bateu recorde histórico de exportações, alcançando US$ 10,7 bilhões em vendas internacionais. O resultado foi puxado principalmente pela celulose, soja e carne bovina.
O Estado também registrou forte crescimento em setores como a suinocultura. Apenas nos quatro primeiros meses de 2026, as exportações de carne suína cresceram mais de 68% em receita e quase 72% em volume em comparação ao mesmo período do ano anterior.
Os números fortalecem o discurso de prosperidade econômica que deve ser explorado por candidatos ligados à atual administração estadual.
O custo de vida acompanha os bons indicadores?
Apesar dos números positivos, o custo de vida continua sendo uma preocupação para muitas famílias. Campo Grande permanece entre as capitais com as cestas básicas mais caras do país. Em abril de 2026, o conjunto de alimentos chegou a R$ 826,89, após alta de 2,6% em relação ao mês anterior.
A inflação oficial da Capital fechou 2025 em 3,14%, abaixo da média nacional de 4,26%, mas alguns produtos continuam pressionando o orçamento doméstico. O café, por exemplo, acumulou alta próxima de 70% em 12 meses. Carne bovina, óleo de soja e tomate também registraram aumentos expressivos.
Moradores de Campo Grande vão às compras na região central; indicadores econômicos de MS, como custo de vida e poder de compra, podem influenciar eleitores Foto: Bruno Rezende/Secom-MS/Reprodução/ND Mais
Mato Grosso do Sul também tem passado por mudanças no mercado imobiliário. Dados do IBGE mostram que o número de domicílios alugados em Mato Grosso do Sul cresceu 54,3% entre 2016 e 2024, passando de 175 mil para 270 mil imóveis. Hoje, cerca de 26,4% das moradias do Estado são alugadas.
No interior, o avanço da indústria da celulose também trouxe efeitos colaterais. Em Inocência (MS), município que recebe o investimento bilionário da fábrica da Arauco, o boom econômico gerou uma crise habitacional. A população praticamente dobrou em poucos meses, passando de cerca de 8 mil para 16 mil pessoas, e pode alcançar até 28 mil habitantes no pico das obras.
Vista aérea da cidade de Inocência (MS)Foto: Chico Ribeiro/Secom-MS/Reprodução/ND Mais
Nem mesmo a expansão da construção civil conseguiu acompanhar a demanda. De acordo com a prefeitura local, o município enfrenta déficit estimado em 2 mil moradias, enquanto os aluguéis dispararam de cerca de R$ 700 para até R$ 5 mil e terrenos passaram a alcançar valores próximos aos praticados em bairros valorizados de Campo Grande.
O cenário cria um paradoxo que pode influenciar o comportamento do eleitor: enquanto os indicadores econômicos apontam crescimento, parte da população continua sentindo o peso do custo de vida.
Como a economia deve aparecer na campanha?
Para o cientista político e professor da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), Daniel Miranda, os diferentes grupos políticos devem explorar aspectos distintos da economia durante a campanha.
“A tendência é que Riedel destaque indicadores econômicos, geração de empregos, investimentos e projetos estruturantes, como a Rota Bioceânica. Já a oposição deverá buscar temas ligados aos desafios da gestão estadual, especialmente em áreas como saúde e educação. A direita bolsonarista, por sua vez, provavelmente continuará apostando em pautas relacionadas ao combate à corrupção e à crítica ao sistema político”, avalia o cientista político.
A grande incógnita para 2026 é saber se os eleitores votarão olhando os números da economia ou a realidade do próprio bolso. Entre recordes de investimentos, crescimento do PIB e custo de vida elevado, essa pode ser uma das principais disputas narrativas da próxima eleição em Mato Grosso do Sul.
Eleições no Mato Grosso do Sul
