Lula lança Plano Safra de R$ 610 bi, mas FPA aponta retração real de R$ 29,6 bi e Tereza Cristina diz que modelo “não tem mais capacidade” de atender o agro.Foto: Ricardo Trida /GovSC/Reprodução/ND Mais
O governo federal apresentou o Plano Safra 2026/2027 como um anúncio recorde: R$ 610,3 bilhões, sendo R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial e R$ 85,2 bilhões para a agricultura familiar. Mas por trás do número redondo, entidades do setor apontam um problema que o Palácio do Planalto tentou disfarçar faltou dinheiro no Orçamento para bancar o que o agro pedia, e o pacote final ficou abaixo do esperado.
A conta não fechou nem perto do que os próprios ministérios queriam. Antes do lançamento, Agricultura e Desenvolvimento Agrário chegaram a defender R$ 652 bilhões. Entidades como a Faep, do Paraná, pediam R$ 670 bilhões.
O resultado final sem os R$ 38,5 bilhões vindos de fontes que nunca haviam entrado nessa conta antes, como o Move Agricultura e o Ecoinvest representa, segundo a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), uma retração de R$ 29,6 bilhões, ou 5,73%, em relação ao ciclo anterior.
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O impasse por trás do anúncio
Nos bastidores, a disputa começou semanas antes do lançamento. Em reuniões na Casa Civil, em meados de junho, técnicos e depois os próprios ministros, Miriam Belchior, Dario Durigan, Fernanda Machiaveli e André de Paula se debruçaram sobre o mesmo obstáculo: onde encontrar espaço fiscal para bancar o crédito rural sem estourar o arcabouço fiscal.
A resposta, no fim, foi menos custeio, mais maquiagem contábil e a promessa represada de dois temas que o agro cobra há anos seguro rural robusto e renegociação de dívidas que ficaram de fora do pacote.
Foi também nos bastidores que se leu o principal recado político do lançamento: Lula optou por não participar do evento da agricultura empresarial, reservando sua presença apenas ao anúncio da agricultura familiar. A ausência foi lida pela FPA como um gesto de divisão do setor, “como se pequenos, médios e grandes produtores, cooperativas e cadeias produtivas não fizessem parte de um mesmo agro”.
Custeio menor, seguro rural no fundo do poço
Na prática, o dinheiro que sustenta o dia a dia da produção encolheu. Os recursos para custeio e comercialização o capital de giro do produtor, usado para plantar e comprar insumos caíram 7,18%, para R$ 384,9 bilhões.
Os recursos equalizados, em que o Tesouro banca parte dos juros para baratear o crédito, recuaram de R$ 113,8 bilhões para R$ 97 bilhões, empurrando o produtor para linhas mais caras no mercado livre.
O Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) é outro ponto sensível. Vem sendo contingenciado ano após ano, um novo bloqueio de R$ 56,3 milhões se somou a um corte anterior de R$ 461,7 milhões e deve fechar o ciclo com a menor cobertura em dez anos, cerca de 2,69 milhões de hectares, justamente num cenário de El Niño e maior risco climático.
A senadora Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra da Agricultura, resumiu o diagnóstico sem meias palavras: o Plano Safra, do jeito que está desenhado hoje, “não tem mais capacidade de responder às demandas de uma agricultura do tamanho da brasileira”.
Ela aponta uma combinação de fatores que classifica como “tempestade perfeita”: clima adverso, restrição de crédito e queda nos preços agrícolas, somada a juros de mercado entre 18% e 22% ao ano. “Pegar dinheiro nessas condições é uma insanidade”, disse.
Consequências para o agro
- Crédito mais caro: com menos recursos equalizados, o produtor recorre a linhas de mercado livre, com juros bem acima dos subsidiados.
- Menos capital de giro: o corte no custeio pode limitar a compra de insumos como adubo e defensivos, com risco para o volume de produção da safra.
- Seguro rural insuficiente: cobertura na mínima em uma década, em um momento de maior instabilidade climática.
- Dívida rural sem solução: a esperada medida para renegociação de débitos dos produtores não veio junto com o pacote; o tema segue travado no Congresso, no PL 5.122/2023, com resistência do Executivo.
- Perda real de poder de compra: corrigido pela inflação do período (4,4%), o valor do plano representa uma perda estimada de R$ 13,6 bilhões frente ao ciclo anterior.
O impasse orçamentário deste ano reacende uma discussão mais antiga no setor: a de que o financiamento da agricultura brasileira depende cada vez menos do Tesouro.
Dados históricos mostram que, na década de 1980 cerca de 80% do crédito rural vinha de recursos do Tesouro Nacional; hoje essa fatia é inferior a 4%. Para 2027, a pergunta que fica é se o governo vai conseguir abrir esse espaço fiscal , ou se o produtor seguirá bancando a conta com juros de mercado.

Joice Gonçalves Repórter
Joice Gonçalves é repórter do ND Mais em Brasília, de onde acompanha de perto as movimentações do Congresso Nacional, os bastidores dos Três Poderes e os rumos das Eleições 2026. Possui sólida experiência política, tendo acompanhado ativamente os pleitos eleitorais, tanto municipais quanto gerais, nas edições de 2018, 2020 e 2022. Além de escrever matérias sobre política, processo legislativo, sociedade e comportamento, produz conteúdos que explicam decisões do governo e seus impactos na vida do leitor. Formada em Comunicação pela UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso), atua no jornalismo desde 2021 e tem experiência em grandes redações multimídia de TV e portais de notícia, com produção multiplataforma e projetos especiais que envolvem articulações políticas e o poder público. Leia mais ▾
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