Esposa relatou caso e denúncia suposta negligência médicaFoto: Natacha Nery/Instagram/ND Mais
Após mais de um ano de denúncias contra dois médicos da emergência do Hospital e Maternidade Tereza Ramos, em Lages, na Serra Catarinense, a Corregedoria da SES (Secretaria de Estado da Saúde) abriu um PAD (Processo Administrativo Disciplinar) contra os servidores em 1º de abril deste ano.
A ação teve início em março de 2025, quando Bruno Orso Rocha, marido de Natacha Nery de Oliveira e pai de Matteo, morreu no local. Sua esposa defendeu que ele foi vítima de negligência médica. A decisão mais recente foi recebida com alívio por Natacha, que apontou que as suas dúvidas não eram infundadas.
O ofício de abertura do PAD foi compartilhado por ela em seu Instagram, nesta terça-feira (9), foi assinado pela corregedora Amanda de Abreu após um processo de Sindicância Investigativa, que consiste em um procedimento sigiloso para apurar irregularidades no setor público. De acordo com o relatório da Sindicância, a ação foi recomendada e aceita pelo órgão.
“A Corregedoria desta Pasta acolheu o relatório da comissão sindicante e proferiu, em 01/04/2026, decisão pela instauração do Processo Administrativo Disciplinar contra os dois servidores”, diz a publicação.
Ao falar do ofício, Natacha destacou a luta e afirmou ter chorado ao saber do PAD. “Não há comemoração quando tudo isso só existe porque ele morreu […] Foram meses de documentos, pedidos de informação, análises de prontuários, lágrimas, noites sem dormir e uma busca incansável pela verdade. Hoje, um órgão oficial reconhece que existem fatos que precisam ser apurados”, escreveu em publicação nas redes sociais.
Cronologia do atendimento hospitalar e indícios de negligência médica
A morte de Bruno ocorreu em 8 de março de 2025 e foi relatada por Natacha nas redes sociais uma semana depois, no dia 14.
Ela explicou que tudo começou às 5h30 da manhã, quando Bruno acordou com febre alta, confusão mental, dor de cabeça, surdez e dor no pescoço. A situação ocorreu 30 dias após ele retirar o baço, intervenção cirúrgica que deixa o sistema imunológico mais vulnerável a infecções graves por bactérias.
Servidores serão investigados internamente por negligência médicaFoto: Freepik/ND Mais
Às 6h, ele e sua esposa chegaram à emergência do hospital, passando pela triagem já em cadeira de rodas devido à intensidade da dor. Às 7h30, o casal ainda esperava a coleta de exames e, após Natacha conversar com conhecidos que trabalhavam no laboratório e ir pessoalmente buscar o exame que deveria constar no sistema do local, o médico plantonista verificou os resultados.
Inicialmente, foi identificada a ausência de alterações específicas nos exames, mas os sintomas se agravavam. Inquieta, Natacha buscou os sintomas em plataformas de busca digital, que indicaram a possibilidade de ser meningite, diagnóstico compatível com a recente retirada do baço.
Hospital Tereza Ramos onde Bruno morreu, em LagesFoto: Secom/Divulgação/ND Mais
Segundo Natacha, ela comunicou a suspeita ao médico, que afirmou não haver necessidade de um exame específico para confirmar a suspeita de negligência médica. Logo após, o plantão dele se encerrou e outro médico assumiu o caso.
O segundo profissional realizou novos exames e testes. Bruno sentia mais dores mesmo com a administração de novos medicamentos. A situação fez Natacha entrar em contato com um médico que acompanhava Bruno há mais tempo, e ele indicou falar com o médico responsável pelo plantão para encaminhar Bruno à UTI, vista a gravidade do caso.
Processo contra negligência médica foi instaurado pela SES-SC Foto: Divulgação/ND
Próximo das 10h, Bruno estava com os lábios roxos e marcas de falta de circulação sanguínea apareciam na pele. Com o tempo, o restante do corpo se arroxeou e a dificuldade de respirar apareceu. O médico afirmou que os sintomas eram decorrentes da febre alta. Natacha pediu para o marido ser reexaminado e os sinais mostraram que o quadro clínico já estava fora de controle.
A meningite bacteriana foi confirmada e apenas nesse momento teria sido solicitado o leito de UTI, evidenciando os relatos de negligência médica. Mais um plantão terminou e o médico não seguiu com o acompanhamento do paciente. Perto das 14h, outra médica assumiu o plantão na emergência, mas a situação era crítica. Às 15h15, Bruno morreu na unidade hospitalar.
“E assim, uma mãe perdeu um filho, um filho perdeu o pai e eu perdi meu marido”, concluiu Natacha.
Ao ND Mais, a Secretaria de Estado da Saúde (SES) informou que adotou as medidas cabíveis assim que tomou conhecimento dos fatos.
Em nota, o Hospital e Maternidade Tereza Ramos, em Lages, afirmou que também tomou imediatamente as providências necessárias e que o caso está sendo apurado por meio de um Processo Administrativo Disciplinar (PAD), com garantia do contraditório e da ampla defesa.
Segundo a unidade, o médico permanece em atividade por manter vínculo contratual vigente. O hospital acrescentou que as medidas administrativas e legais cabíveis serão definidas após a conclusão do PAD, com base no relatório final elaborado pela comissão responsável pela investigação.
